24 Março 2026

Cada um sabe a dor e a delícia de ser pai ou mãe

Uma reflexão sobre a importância paterna e o que a sociedade ainda não entendeu sobre o papel dos pais.

Escrito em Exeter, Reino Unido

Recentemente, minha filha Adele me mandou um vídeo sobre uma conversa que ela estava tendo com suas amigas a respeito da importância de uma mãe na vida das crianças. No vídeo, ela me falava que estava com saudades, o que a levou à questão da presença paterna, sua importância e como ela estava feliz por ter a minha presença. Eu, como sentimental que sou, chorei, claro, mas mais do que isso, o vídeo me fez pensar sobre um assunto difícil de desenvolver em um texto, mas vou tentar explicar minha forma de pensar.

Nesse mesmo dia, ou talvez no dia seguinte, tive também uma conversa com minha namorada sobre o papel dos pais, pois ela estava sentindo falta de sua filha quando estava comigo. Por um motivo ou outro, acabamos conversando sobre o relacionamento entre pais e filhos. Eu falei sobre a importância da presença paterna na vida das crianças e como a sociedade, ao longo do tempo e de construções culturais, fala apenas das mães, mas que, evolucionariamente, as crianças precisam dos dois papéis e que eles, os dois, são fundamentais. O que me levou a querer escrever isso foi que ela me disse: "Você não é mãe, e nunca vai entender."

Essa frase é uma falácia baseada em uma pressuposição: a de que apenas quem é mãe pode entender. Mas mesmo aceitando esse argumento, ele é recíproco — ela também não é pai e nunca vai entender. Pai não é mãe e vice-versa. Acredito plenamente que uma boa criação requer os dois sendo presentes, complementares e constantemente em acordo. Discordo de que a mãe é mais essencial do que o pai. E aqui não quero entrar na questão de que a mãe carrega os filhos por 9 meses, que a mãe tem mais proximidade com os filhos, etc. Minha discordância é sobre um ser mais importante que o outro, ou um ser essencial enquanto o outro — geralmente o pai — ser importante, mas não necessário. Essa discordância vem, claro, de minha experiência pessoal, uma experiência que, certa ou errada, me fez quem eu sou e como sou.

Poderíamos entrar aqui no mérito de que a mãe tem um amor de ligação construído ao longo do período gestativo. Mas isso não desqualifica o amor paterno — ele é um aprendizado. Um amor que nasce de uma transição quase que repentina: um dia a vida é de um jeito, e no momento em que o filho chega, tudo muda de forma irreversível. Não há nove meses de preparação emocional gradual, há um instante que divide a vida em antes e depois. E aprender a amar dessa forma, com essa intensidade e essa responsabilidade, tem um mérito próprio que merece ser reconhecido. Insisto que as duas experiências são válidas, positivas, fundamentais e possivelmente insubstituíveis.


Aos 12 ou 14 anos — não lembro bem, pois ter 56 faz a diferença entre 12 e 14 anos ser ínfima — meus pais se separaram. Aqui não vou entrar no mérito da questão, mas é importante saber que, devido à forma como o processo correu, eu continuei morando com meu pai. Em outro momento posso falar sobre o que isso quer dizer, minha relação com meu pai e com minha mãe, mas aqui o que importa é que esse fato me fez ver como o mundo aparenta desprezar a imagem do pai como pessoa tão importante quanto a mãe. Ainda lembro de amigas de minha mãe e outros familiares me criticando por eu ter ficado com meu pai, usando frases como "mãe é mãe". Na verdade, nunca soube o que essa frase quer dizer, porque acho que algumas de minhas características pessoais, inclusive certas que hoje colegas dizem ser características de autismo, me faziam pensar que essa frase é ridícula, pois "pai é pai", "irmão é irmão", "cachorro é cachorro". Ou seja, essa frase é verdade para qualquer palavra: palavra é palavra.

Lembro também de já responder aos que amam essa frase que "pai é pai" também, para o olhar surpreso das pessoas que apenas falavam: "você não está entendendo!" Não estava mesmo, mas já sabia que a frase é cultural e que provavelmente tinha a intenção de expressar a importância da mãe acima de tudo. Outra frase muito comum no Brasil, muitas vezes dita logo em seguida a "mãe é mãe", é "mãe só tem uma". Como se pai a gente tivesse dois ou cinco!


Mas vamos adiante. Hoje, olhando para tudo isso, vejo que esse tipo de visão me fez ser o pai que fui e que sou, seja eu um bom ou mau pai. Acredito que esteja mais próximo do bom, mas ninguém é perfeito, inclusive as mães. Essa visão me fez tentar ser um pai presente, próximo, ligado aos sentimentos dos meus filhos, complementando o papel de minha ex-esposa, Sarah — pessoa maravilhosa e que provavelmente seja a única que merece a frase de que "só tem uma".

O que me aborrece é que não importa o quão bom uma pessoa seja como pai: o pai é desprezado pela sociedade como um mero adendo à mãe. E não estou falando aqui de mim, estou falando que mesmo tentando, e mesmo que eu fosse ou seja um bom pai, ainda temos que ouvir frases que jogam o papel do pai ao segundo plano. Por quê? Como mudar isso? Não me venham falar de pais violentos como argumento para diminuir o papel paterno. Violência e falha moral não têm gênero. Isso não define o que é ser pai, assim como não define o que é ser mãe. O que define é a presença, o afeto e o compromisso — e esses não são exclusividade de ninguém.

Não importa o quanto um pai tente ser bom, presente, amigo, ele vai sempre ser visto como "pai é pai" e não como "mãe é mãe".

No momento da conversa com minha namorada, apenas me calei, porque não vale a pena. Não vou conseguir mudar isso, não tenho como mudar uma sociedade, uma forma de pensar antiquada, onde a mãe era essa pessoa que fica em casa e cuida dos filhos. Mulheres que criticam o mundo patriarcal, e estão certas, são muitas vezes as mesmas que acham que precisam deixar de trabalhar para cuidar dos filhos porque "mãe é mãe", e não admitem que os pais compartilhem esse papel. Muitas vezes protegem esse status com unhas e dentes. Falham em ver que esse mundo patriarcal que tanto criticam é exatamente o mundo que criou essas imagens da Virgem e de Jesus, onde a Virgem é santa, mas o pai do mesmo Jesus, apesar de santo, é muitas vezes esquecido. Esquecem que esse mundo reforçou a ideia de que mães precisam ficar em casa porque são insubstituíveis, mas que fez isso apenas como uma forma de subliminarmente forçá-las a ficarem em casa, em um reforço do mundo patriarcal. Esquecem que é o mesmo mundo que não dá valor ao trabalho que elas fazem fora o de mãe, o mundo que não paga salários justos às mulheres e que, pior, muitas vezes não as deixa tirar licença maternidade longa o suficiente para exercerem o papel de "mãe é mãe" — e não as deixa porque prefere que elas saiam do emprego para fazer o que é tido como "obrigação": cuidar dos filhos.


Sim, morei com meu pai. Choro ao lembrar dele. Quase todas as músicas sobre pais que ouço me levam a ele. Amava minha mãe — tanto meu pai como minha mãe já morreram — mas é um amor diferente. Mãe é mãe e a amava como mãe. Pai é pai e o amava como pai. Nunca achei que um substituía o outro. Nunca achei que um era mais importante. Mas morar com meu pai me fez ver, na prática e na vida, que a importância paterna é tão grande quanto a materna. Lutei e luto para tentar ser um exemplo disso, mas sofro a cada ligação que não recebo de meus filhos, a cada frase que coloca o pai em segundo plano. Vou continuar lutando porque minha experiência me fez ver que não é tão simples. Celebremos as mães, sim. Mas não esqueçamos dos pais. Não esqueçamos das duas mães ou dos dois pais em relacionamentos homoafetivos. Crianças precisam de pessoas boas, presentes e diferentes entre si. E essa diversidade de afetos é o que há de mais precioso em uma criação. Mas não esqueçamos: pai é pai, pai só tem um!

Vale dizer que o título deste texto é uma referência à belíssima música de Caetano Veloso, "Dom de Iludir". Digo isso porque foi meu pai que me fez gostar de música, que me fez sentir emoção ao ouvir uma letra como a de "Super-Homem", do Gilberto Gil, ao ouvir "O Filho que Eu Quero Ter", de Toquinho, e tantas outras que falam da emoção sentida por pais em relação aos seus filhos e vice-versa.

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