17 Abril 2026

Nasci Ateu. Só Demorei Para Perceber.

Sobre tentar acreditar no que nos ensinaram, não conseguir — e descobrir que isso foi libertador.

Escrito em Nova Délhi, Índia

Será que é possível alguém já nascer ateu? Eu pergunto porque nunca me senti confortável com questões religiosas — e por muito tempo achei que esse desconforto era um problema meu, uma falha de fé que eu precisava corrigir. Mas fui percebendo, aos poucos, que a pergunta estava errada. Todo mundo nasce ateu. Todo mundo nasce sem crenças, sem dogmas, sem um Deus pré-instalado. A crença vem depois, ensinada, repetida, reforçada até parecer natural. Não é diferente da linguagem: temos a capacidade genética de falar, mas não falaríamos uma única palavra se ninguém nos ensinasse. A fé funciona da mesma forma. A diferença é que, em algum momento da nossa vida, temos que parar de repetir o que nos ensinaram e começamos a pensar por conta própria. Da mesma forma que, ao aprender a ler, podemos escolher o próximo livro. No meu caso, foi nesse momento que o castelo de cartas desabou.

Assim como quase todo brasileiro, fui criado como cristão, católico especificamente. E as memórias mais vívidas que tenho dessa época são da minha mãe. Era ela quem me falava sobre Deus, sobre Jesus, sobre Nossa Senhora. Ela falava muito, contava histórias, mas não explicava. E eu, desde cedo, precisava entender as coisas. Não conseguia simplesmente aceitar. Então eu ficava ali, ouvindo a história desse homem que veio à terra como filho de Deus, mas não filho como nós. Nós também somos filhos, claro, mas somos filhos sem o selo de autenticidade. Esse filho especial veio aqui, entre nós, com um único propósito: morrer assassinado — assassinado por pessoas que o próprio Deus colocou na terra com essa função. Um roteiro escrito de antemão, com personagens sem escolha, incluindo Judas, que nasceu pra ser o traidor, mas se foi assim, sabemos de quem foi a culpa.

E não me venham falar de livre-arbítrio. Porque se Deus é onipotente, e é o que nos ensinam, então ele pode dar ou retirar o livre-arbítrio quando quiser. Não existe escolha real quando o roteiro já está escrito. Deus é quem sabe, não é isso que dizem? Um Deus que manda o próprio filho pra ser assassinado dificilmente pode ser descrito como uma boa pessoa. Sendo onipotente, não seria mais fácil simplesmente plantar uma sementinha de bondade em cada pessoa? Mas tudo bem, porque depois de morto, esse filho — que também é Deus, e que portanto poderia ter interrompido o próprio assassinato a qualquer momento — simplesmente volta para o Pai. É um vai-mas-volta. Uma brincadeira de yo-yo transcendental: "Vai lá na terra, sofre muito, morre, mas quando acabar você volta pra mim. Até a próxima vez que eu precisar de você." Quanto mais eu tentava entender essa narrativa, menos ela fazia sentido.

Lembro com clareza de um momento na missa. Eu tinha uns dez anos, talvez menos. Tinha lido o evangelho do dia antes do sermão e, quando o padre começou a falar, percebi que a interpretação dele me parecia equivocada. Não era agressividade nem rebeldia, era simplesmente a impressão honesta de uma criança que tinha lido o mesmo texto e chegado a uma conclusão diferente. Virei para a minha mãe e disse baixinho que queria sugerir outra interpretação. Ela me mandou calar a boca. Com razão, do ponto de vista dela. Mas aquilo ficou em mim. Por que a escola onde eu podia questionar tudo era a mesma escola onde a religião ficava protegida por um muro de vidro? Na aula de português, eu podia perguntar por que em "repetiam sempre a mesma ideia: que Deus pune os pecadores" temos uma oração subordinada substantiva apositiva. Mas na aula de religião, eu não podia perguntar se essa ideia fazia algum sentido.

Meu filho, vá ler a Bíblia, diziam. A Bíblia não ajudou. Quando tentei lê-la de ponta a ponta, o que encontrei foi um nível de violência que tornava difícil qualquer leitura edificante, especialmente se você tentasse levar o texto a sério. E aí vem o problema: não existe um guia oficial dizendo o que deve ser lido literalmente e o que é metáfora. "Amai-vos uns aos outros" podemos entender ao pé da letra, ótimo. Mas as pragas, os apedrejamentos, o Deus que mata todos os primogênitos do Egito numa noite, esses já são alegoria, símbolo, contexto histórico. A régua muda conforme a necessidade. Para mim, a solução foi simples: é ficção. Ficção com algumas passagens bonitas e muitas outras que envelheceram muito mal.

Os personagens da Bíblia também são estranhamente vazios fora dos momentos de milagre ou catástrofe. Não sabemos quase nada sobre a vida cotidiana de ninguém — só aparecem quando estão curando alguém, vendo uma sarça pegar fogo (Êxodo 3:2), ou decretando que algum grupo específico merece ser apedrejado (Levítico 20, para começo de conversa). Geralmente grupos vulneráveis: mulheres, pobres, pecadores de plantão. A narrativa é seletiva de uma forma que, quando você percebe, não consegue mais não perceber.

Foi exatamente a religião que me fez ateu. E confesso que foi uma das melhores coisas que já aconteceu comigo. A liberdade de dizer, pela primeira vez, que não acreditava em Deus, assim como não acreditava em Saci-Pererê ou Mula Sem Cabeça. Embora hoje eu ache esses últimos consideravelmente mais prováveis de existirem. Um peso saiu. Porque se não existe um juiz eterno anotando cada passo meu, então o que eu faço é escolha minha. O que deixo de fazer também. A responsabilidade é minha. Inteira. E isso, longe de ser assustador, foi libertador.

Finalmente entendi o livre-arbítrio de verdade. Ao me definir ateu, eu me dei o livre-arbítrio. Não o livre-arbítrio teológico, aquele que existe mas só até onde Deus permite — o livre-arbítrio real, que é simplesmente a percepção de que você pode fazer o que quiser, e que tudo tem consequências tangíveis, nesse mundo, no único mundo que existe. Sem julgamento final. Sem placar sendo mantido em algum servidor celestial. Só você, suas escolhas, e o mundo em que essas escolhas acontecem.

Ao me definir ateu, eu me dei o livre-arbítrio. Não o livre-arbítrio teológico — o livre-arbítrio real, que é simplesmente a percepção de que você pode fazer o que quiser.

Não sei bem por que estou escrevendo isso. Mas sinto que vale dizer, porque foi uma virada real na minha vida. Há um eu anterior a essa percepção e um eu posterior, e o posterior é, sem falsa modéstia, muito melhor. Mais responsável, mais honesto, mais presente.

O ateísmo não me define por completo — é uma ausência, não uma identidade. O que me define é o que construí a partir dessa ausência. Mas quero desmistificar uma coisa. Ser ateu não significa ser frio, sem espiritualidade, sem momentos de espanto diante do mundo. Nossa racionalidade é extraordinária. O universo, quando você realmente para e olha de verdade, é mais surpreendente do que qualquer narrativa religiosa. A diferença é que o espanto do ateu não precisa de um intermediário, não precisa de um templo, e não precisa de um Deus que, convenhamos, tem um histórico bastante problemático.

Esse Deus que nos é apresentado é basicamente um voyeur que gosta de ser adorado, mantém um arquivo detalhado de cada deslize seu, e reserva o julgamento para o momento mais dramático possível. É feito à imagem e semelhança de quem o criou — e quem o criou tinha uma visão bastante específica de poder, punição e obediência. Pense nisso por um momento. É difícil ser uma boa pessoa tentando imitar esse modelo. Fica muito mais fácil quando você para de olhar para cima esperando instruções e começa a olhar em volta para entender o que o mundo precisa de você.

Quando a vida vira uma escolha — de verdade, sem rede de proteção sobrenatural — fica mais fácil corrigir o curso. Porque não depende de outrem. Depende de nós, um a um. Assim como ninguém nasce crente, ninguém nasce responsável. As duas coisas se aprendem. A diferença é que uma delas você pode ensinar para si mesmo.

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