Dessa vez escrevo em português. O assunto pede — é mais ligado ao meu lado pessoal, à forma como fui criado, e algumas histórias só funcionam no idioma em que foram vividas.
Quando eu era criança, meu pai foi representante de discos durante algum tempo. Se não me engano, a gravadora era a Polygram, que no Brasil tinha contrato com praticamente todos os artistas importantes da época. Cresci também sabendo que em determinado momento ele foi um expert em Beethoven, apesar de eu nunca ter ouvido ele falar uma palavra sobre o compositor. A informação simplesmente existia, como um dado sobre alguém que você admira sem entender por completo. Mas o que importava mesmo era o efeito prático do trabalho dele: LPs. Muitos LPs. Papai trazia discos pra casa como outros pais trazem pão. Discos bons, e outros nem tanto, mas sempre chegando. Quem lembra de LPs? :)
Interessante é que música, na minha casa, era algo meio segregado. O gosto das minhas duas irmãs não tinha nada a ver com o gosto dos meus irmãos. Elas eram do Roberto Carlos, da Jovem Guarda. Eles eram do que chamávamos de MPB: a Bossa Nova de Tom Jobim, a Tropicália de Caetano e Gil, o Clube da Esquina de Milton Nascimento, o Pessoal do Ceará de Belchior e Fagner — e, acima de todos para mim, Chico Buarque. Dois mundos musicais convivendo na mesma casa, cada um emocionando à sua maneira. Não se trata de um ser melhor que o outro — música boa é a que toca quem ouve. Acontece que o caminho que me puxou foi o da MPB, com suas camadas e com letras que falavam de coisas que uma criança não entendia direito mas sentia que eram importantes.
E aqui preciso explicar uma coisa sobre a composição da minha família: sou nove anos mais novo que o meu irmão mais novo. Sou o caçula de forma quase radical. Quando eu tinha dez anos, ele já tinha dezenove. E uma criança de dez anos faz o que pode para parecer com os irmãos mais velhos. Eu não entendia tudo o que eles ouviam, mas sabia que queria ouvir o que eles ouviam.
Então eu sentava no chão.
Essa é uma imagem que guardo com clareza: o chão da sala, os discos novos, e eu ali debruçado sobre aquelas músicas como se fossem matéria de estudo. Repetia. Repetia de novo. Decorava as letras com uma dedicação que hoje, olhando para trás, me diz alguma coisa sobre quem eu sou. Amigos me dizem que tenho características de uma pessoa autista — alguns dizem com convicção que eu sou, eu não concordo, mas reconheço que quando algo me prende, eu mergulho de um jeito que nem todo mundo entende. As letras do Chico Buarque viraram meu projeto particular. Me "gabava" de saber todas, ou quase todas. Meu pai às vezes contava pros amigos o quanto eu sabia, e aquilo me incentivava a decorar ainda mais. Era uma troca simples e preciosa: o orgulho dele me dava combustível, e as letras do Chico me davam um universo inteiro pra habitar.
O curioso é que, ao mesmo tempo, ninguém me incentivou a ler durante a infância. Não tenho uma única memória dos meus irmãos com um livro na mão. O incentivo veio, mas veio tarde e de onde eu não esperava: meu pai, já aposentado, passou a ler muito. Ver aquele homem que a vida inteira eu associei a discos agora cercado de livros me tocou de alguma forma, e aprendi a gostar de leitura observando ele. Gosto até hoje. Mas nunca da mesma forma que gosto de música. A leitura chegou pronta, pelo exemplo, quando eu já era adulto. A música eu construí desde cedo, por conta própria, sentado naquele chão. Uma foi aquisição; a outra, fundação.
Isso nunca parou. Mudou de forma, mas nunca parou.
Lembro de um período morando em Campinas, fazendo mestrado na Unicamp. Meu quarto ficou muito tempo sem televisão, mas tinha um equipamento de som. Eu passava horas sentado na varanda, sozinho, ouvindo música. Não era solidão no sentido triste da palavra — era uma companhia que eu escolhia. Música me acalma. Música me faz pensar.
Escrever também me acalma, descobri depois. Talvez porque escrever é mais lento do que falar e me dá tempo de pensar. Ou talvez porque minha formação acadêmica me exigiu escrever constantemente, e o que começa como exigência às vezes termina como gosto. Mas ler não me emociona da mesma forma que música. E é aqui que chego numa pergunta que eu genuinamente queria saber responder.
Eu me emociono com letras. Chego a me emocionar profundamente com letras que são, na prática, poesias. Mas se eu pego essas mesmas poesias sem a música, o efeito quase que desaparece. O mesmo texto, as mesmas palavras, a mesma construção — e quase nada. E o mais intrigante: já ouvi poesias recitadas com uma música instrumental de fundo, e até essa música de fundo, que não tem nada a ver com o poema, me fez entender o texto de uma forma melhor.
O que a música faz com as palavras? Por que o mesmo verso, dito, é informação, e cantado, é emoção? Não tenho a resposta e confesso que nunca tentei pesquisar. Fico com a pergunta, deliberadamente, porque às vezes a resposta banaliza a fantasia. Prefiro não saber exatamente por que a música me solta e me muda — saber poderia desfazer o encanto. Mas especulo. Talvez a melodia funcione como uma chave emocional que abre o texto por outra porta. Talvez o ritmo imponha ao verso o tempo certo de ser sentido, enquanto na leitura a gente atropela as palavras no nosso próprio ritmo, que nem sempre é o ritmo delas. Ou talvez seja simplesmente a minha formação: cresci recebendo poesia pela via musical, e meu cérebro aprendeu que é por ali que ela entra. Gosto de textos musicados. E se um dia a curiosidade vencer o encanto, aí eu pesquiso.
O que não tive foi formação musical. Nunca aprendi um instrumento quando criança, e isso me deixou triste por muito tempo de um jeito específico — a tristeza de saber o que teria sido um bom complemento. Minha mãe dizia que na nossa casa teve um piano. Eu não lembro. Parece que minhas irmãs tiveram aulas. Eu não lembro. Segundo ela, o piano foi vendido por dificuldades financeiras. Eu não cheguei a tempo. O fato é que minha formação musical foram os LPs que chegavam pelas mãos do meu pai. Tenho orgulho de ter dado aos meus filhos a oportunidade que não tive — os dois tocam piano extremamente bem. E durante décadas guardei esse vazio: saber tantas letras e não conseguir produzir uma única nota parecia uma incompletude sem solução. Parecia. Há uns cinco anos comecei a aprender violão. Não toco bem, mas toco o suficiente pra me permitir cantar algumas daquelas letras que carrego desde o chão da sala.
Eu não consigo entender minha vida sem música. E confesso que não consigo entender como existem pessoas que não gostam de música. Tenho um amigo assim. Uma pessoa boa, inteligente, interessante em tudo — mas música pra ele é só som de fundo. Olho pra ele com curiosidade genuína: como é um mundo sem essa camada?
Porque a minha camada nunca desliga. E foi isso que me fez escrever esse texto.
Recentemente, conversando com amigos, comentei que todos os dias eu acordo com uma música na cabeça. Não uma música que eu estava cantando na noite anterior, nem algo que tocou no rádio. Muitas vezes acordo com músicas que não ouço há anos. Elas aparecem inteiras, do nada, como se estivessem esperando a vez. Quando contei, a reação foi de surpresa: aquilo não acontecia com nenhum deles. Eu sempre achei que fosse universal. Aparentemente não é. Ou será que é?
Como trabalho com ciência de dados, pensei em anotar todas as músicas para procurar algum padrão. Fracassei rapidamente, por dois motivos. Primeiro, é preciso ser muito mais disciplinado do que eu para anotar algo todos os dias ao acordar. Segundo, para encontrar um padrão de verdade eu precisaria de anos de dados. E existe um terceiro motivo, o mais bonito deles: a música da manhã é volátil como um sonho. No momento em que você tenta segurá-la para cantar, ela se esvai. Você sabe que ela estava lá. Às vezes já não consegue dizer qual era.
Pesquisando, descobri que o fenômeno tem nome: imaginação musical involuntária. É estudado, documentado, e aparentemente bem comum. Mas se é tão comum, por que nenhum amigo meu tem? Gosto de atribuir ao volume de música da minha infância — ouvi tanto, tão cedo, de forma tão intensa, que alguma coisa ficou gravada num nível que se mistura com os sonhos.
Gosto de acordar assim.
Gosto de saber que tem música dentro de mim que eu nem sei que está lá, esperando a hora de aparecer. Música faz parte da minha vida de um jeito que vai além do gosto ou do hábito. Ela aparentemente vaza — dos sonhos, dos anos, das letras que decorei sentado no chão da sala enquanto meu pai trazia discos e meus irmãos, sem saber, me ensinavam a ouvir.